19 de setembro de 2004

Deshnok

Os ratos já nascem pobres e nem todos nascem livres. Muitos deles nascem dentro de gaiolas. Os mais afortunados podem ser encontrados dentro de pet-shops e coisas do gênero, porém são poucos... Este destino está mais reservado aos hamsters e camundongos, que são considerados os roedores mais adoráveis e por este motivo podem exercer o ofício de animais de estimação. Aos ratos, na maioria das vezes, restam apenas os esgotos ou a dura realidade de uma vida como um animal de laboratório.

Os eventos contidos nesta narrativa poderiam ter acontecido em qualquer universidade ou instituição de pesquisa do mundo. Também não convém explicitar uma data exata, mas vamos dizer que eles são bastante recentes. Tudo começa dentro de uma sala, que convenientemente se chama biotério. Trata-se de um lugar onde dezenas ou centenas de gaiolas contendo ratos ou outros bichos são depositadas. Não visitei muitos biotérios na minha vida, mas imagino que assim como ocorre nas prisões, as diferenças entre um e outro devem ser mínimas. Imaginem apenas uma sala fechada, cheia de prateleiras cada qual contendo gaiolas e dentro destas.... Ratos, muitos ratos... Encontramos quatro ou cinco por gaiola e o cheiro que elas exalam costuma variar de acordo com os ânimos do bioterista (a pessoa que cuida do biotério, dã).

Aos nossos olhos os ratos são todos iguais e os seus guinchos não podem ser considerados como uma forma de linguagem. Porém para muitas pessoas, os japoneses, chineses e coreanos também são todos iguais e as palavras que saem de suas bocas são igualmente indecifráveis. Mas, como eu já escrevi no post anterior, a condição de narrador me torna automaticamente um Deus todo-poderoso e desta forma eu consigo entender a linguagem dos ratos. Como já foi mencionado antes, nos encontramos em um biotério e isto no momento é tudo que precisamos saber. Além do cheiro de merda e urina de rato que paira no ar, dá para sentir claramente o cheiro de medo. O cheiro fica ainda mais forte perto de uma determinada gaiola que contém só um rato.

O rato em questão não tem um nome porque nunca lhe deram um. Sua mãe sabia qual seria o seu destino desde o momento em que ele e seus 11 irmãos nasceram, e portanto não se deu ao trabalho de batizar sua cria. Uma das poucas coisas que sabemos sobre o rato solitário é sua data de nascimento, que está assinalada na etiqueta presa do lado de fora de sua jaula. Sabemos também que morrerá em breve, assim como aconteceu com seus irmãos e sua mãe. Seus irmãos por sinal, não morreram todos de uma forma homogênea, pois metade da prole foi devorada pela própria mãe e se não fosse a intervenção do bioterista, a outra metade seria igualmente consumida. O que inicialmente pode parecer um ato de selvageria sem sentido, foi na verdade apenas um ato de amor pela parte da mãe, pois ao se conscientizar do destino que seus filhos teriam, ela decidiu abreviar o sofrimento de todos eles. A outra metade de seus irmãos foi levada por homens de jaleco com luvas de borracha e sua mãe foi removida da gaiola semana passada. A única outra coisa que precisamos saber é que antes de sua mãe ter ido embora, quando os dois estavam sozinhos na gaiola, ela lhe contou uma história. Ela lhe disse para não ter medo, que independentemente do que fosse acontecer, no final as coisas se resolveriam. O rato, que não fazia a menor idéia do significado da palavra esperança, foi incapaz de entender como as coisas poderiam melhorar. Sua mãe então falou da existência de um lugar onde os ratos eram felizes, felizes ao ponto de aprenderem o significado da palavra esperança. Mas ele não acreditou. Quando levaram sua mãe e os seus olhares se cruzaram pela última vez, ele desejou ter gritado “eu acredito”, mas não conseguiu.

Finalmente, o dia de sua morte chegou. Agora não sentia mais medo, o cheiro de medo que ainda impregnava a sala se originava das gaiolas vizinhas. Sentia apenas ódio, odiou a si mesmo por ter nascido rato e foi mais além odiando o pai que nunca conhecera e a mãe pela sua concepção.

Os homens de jaleco branco com luvas o retiraram da caixa e pela primeira vez na vida ele pode perceber como o mundo era amplo. Mas por pouco tempo, pois quando menos esperava seu mundo foi limitado novamente pela estreiteza de um vidro cheio de éter. Então, quando o éter lhe queimava as narinas e embaçava seus olhos, ele viu o lugar que sua mãe havia mencionado. A princípio ficou em dúvida se a visão que se materializava na sua frente era de fato uma coisa real, ou apenas um delírio causado pelo inferno de éter em que fora depositado. Mas, ele sabia que o fato de ter passado toda a sua existência confinado em uma gaiola, tornou escassa a matéria-prima para os seus sonhos e fantasias. Deste modo, esta visão que agora se apresentava para ele não poderia estar vindo do interior de sua mente. Muitos outros ratos o aguardavam e pela primeira vez ele se deu conta de que todos eles eram diferentes entre si. “Que lugar é este?”, perguntou. E todos os ratos responderam em uníssono, “Deshnok”. Então ele aceitou abraçar a sua visão.

Não sentiu nada quando lhe deceparam a cabeça.

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