24 de outubro de 2004

A incrível festa na casa de Nathaniel

Um rapaz tímido como poucos, que sonhava em ser popular, assim como muitos. Assim era Nathaniel. E os eventos que serão narrados a seguir entraram para o imaginário do coletivo popular como “A incrível festa na casa de Nathaniel”.

(Acordes iniciais de “Assim falou Zaratustra” de Richard Strauss).


Dia 1 – A Festa

“A primeira festa que você dá em sua casa é como um batismo. Um batismo de fogo! É como nascer de novo, o sentimento de liberdade só pode ser comparado com a sensação de sair do útero.” Nathaniel gostava de passar longos períodos do seu dia pensando em coisas assim, estabelecendo metáforas estapafúrdias, se aprofundando em assuntos que talvez não devessem ser aprofundados. Neste dia, fazia isto ao mesmo tempo em que cuidava dos preparativos para a sua festa. Tecnicamente esta não era a primeira festa que seria realizada em sua casa, mas as outras sempre haviam ocorrido na presença dos pais, algo que acabou por gerar experiências traumáticas. Agora no entanto, não haveria mais empecilhos, não haveria mais desculpas. Nos anos anteriores, seus pais haviam lhe negado um iPod, um carro e uma assinatura do canal pornográfico da TV a cabo. E na manhã deste dia glorioso, ao descer as escadas de sua casa, Nathaniel se deparou com seu pai e sua mãe carregando malas. “Estamos viajando, o jantar está no forno, juízo viu?”, foram mais ou menos estas palavras que sua mãe disse.

Ao anoitecer deste mesmo dia, não estava mais só. Na verdade, isto talvez seja uma questão relativa, já que assim como poucos, Nathaniel era um ser humano que sentia o peso da solidão redobrado quando estava na companhia de outras pessoas. E nesta noite, Nathaniel nunca havia se sentido tão só. A casa estava cheia de pessoas, mas vazia de amigos. Ele começou a desejar que todo mundo fosse embora o mais cedo possível. Foi para o seu quarto, sentou na cama e com as mãos, tampou os ouvidos para evitar os ruídos que vinham dos outros cômodos. Agora só lhe restava esperar o tempo passar. Olhando pela janela do seu quarto, reparou que uma estranha névoa começava a se formar ao redor de sua casa. Saiu do quarto, desceu as escadas e abriu a porta da sala. A única coisa que conseguiu ver foi uma figura humana que emergia da imensidão branca à sua frente. Era um entregador de pizzas carregando uma dúzia delas. Nathaniel voltou rapidamente para a sala e gritou, “Quem foi o Filho da puta que pediu pizza?”.

Dia 2

“Após 24 h, cadáveres e convivas começam a feder.” Nathaniel não sabia aonde tinha lido esta frase, mas ela começou a ecoar em sua cabeça desde que ele percebeu que as pessoas não conseguiam deixar sua casa. O fato é que a névoa ainda persistia e apesar do relógio indicar que eram 10 horas da manhã, não era esta sensação que se experimentava ao se olhar pela janela. As pessoas que tentaram voltar para suas casas falavam que o mundo exterior parecia que tinha desaparecido e tudo o que restava era a casa de Nathaniel, por isso voltavam sempre e por fim foram dominados pelo conformismo. A única coisa que podiam fazer era esperar. O único que não se conformou com a situação era o próprio Nathaniel. Trancou-se no banheiro e começou a chorar, rezando para que as pessoas fossem embora. No fim do dia, o mesmo entregador de pizza apareceu na porta da sala, sem falar nada deixou novamente 1 dúzia de pizzas no chão e antes que as pessoas pudessem questioná-lo, desapareceu no interior da névoa.

Dia 3

No amanhecer do terceiro dia, restos de pizza jaziam no chão e as pessoas faziam fila para entrar nos banheiros. Aproveitando-se do fato de que haviam se esquecido dele, Nathaniel esvaziou as geladeiras, recolheu os 3 aparelhos de TV existentes na casa e trancou-se em seu quarto. Por volta das 2 da tarde, as pessoas começavam a procurar algo para comer ou assistir televisão, quando percebiam que não iriam conseguir fazer nenhuma das duas coisas, entravam em pânico. Três rapazes começaram a ter crises convulsivas no meio do corredor. Um outro grupo se revezava em violentar uma garota no banheiro. Após ser sodomizada de todas as formas possíveis, a mesma garota usou uma gilete para cortar seus pulsos. Nathaniel continuava no seu quarto, só que desta vez ele fazia questão de ouvir o que acontecia nos outros cômodos. Ao ouvir o que tinha acabado de acontecer no banheiro, começou a se masturbar violentamente.
No fim do terceiro dia, o entregador de pizzas novamente apareceu. Desta vez, as pessoas que haviam abrido a porta para ele tentaram agarrá-lo, mas a simples visão daquela figura enigmática paralisava a todos. Esta noite ele havia trazido apenas 10 pizzas.

Dia 4

Não havia mais água dentro da casa, pelo menos potável não havia, só restava a água contida no interior das privadas.

Infelizmente, as pessoas não podiam se dar ao luxo de serem tão seletivas.

Dia 5

Mais um estupro, mais um suícidio. Agora só seis pizzas eram deixadas no chão da sala.

Dias 6,7,8,9 e 10

(............)

Dia 11
Os pais de Nathaniel retornaram de viagem, tinham ouvido falar que durante sua ausência, o tempo estivera meio estranho nesta região, mas agora tudo parecia normal.

Os corpos jaziam no chão da sala ao lado de restos de pizza.

Após arrombarem a porta do quarto, viram o corpo de Nathaniel deitado na cama.
Se apenas por um momento tivessem conseguido enxergar além das lágrimas, teriam reparado que apesar do estado de decomposição avançada em que se encontrava Nathaniel, era possível visualizar claramente um sorriso sereno que se formava em seu rosto.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial