3 de outubro de 2004

Magdalena Salerosa

Sentia os olhares alheios penetrando em sua pele como milhares de agulhas incandescentes. E esta sensação a acompanhava desde que chegara à adolescência, e as características sexuais secundárias começaram a transformar o seu corpo de menina. Era a mais bela mulher que o mundo já vira. Uma benção? Uma maldição era mais provável. Deixemos claro, que não odiava o fato de ser bela, muito pelo contrário. Era vaidosa e fazia questão de passar horas frente ao espelho. O inferno sempre são os outros. Os homens lançavam olhares de cobiça, enquanto que as mulheres lhe alvejavam com inveja. A admiração e o ódio que sempre a seguiram, não se extinguiu com o tempo. Talvez isto ocorresse se ela fosse o tipo “bonita-e-burra”, mas de burra não tinha nada. Era o tipo de pessoa que conseguia ser a melhor em tudo que se propunha a fazer. E gostava de fazer todas as coisas que lhe apareciam pela frente.

Por não poder confiar sinceramente em ninguém, não tinha amigos. A falta de amigos lhe rendeu a injusta fama de pessoa arrogante. Graças a esta reputação adquirida, se tornou um objeto ainda maior de cobiça para os homens e de ódio para as mulheres. Talvez tudo na vida possa ser definido em ciclos.

Estava atravessando uma fase de cantora. Como a fama de arrogante de fato não lhe fazia justiça, se limitava a cantar em pequenos bares. Era o suficiente para que fosse ouvida por milhares.

Uma noite, um grupo de mulheres armou uma emboscada do lado de fora de um bar onde ela se apresentava. Vinte mulheres, uma rua deserta e um grito de socorro abafado por um pano embebido de clorofórmio.

Acordou no dia seguinte no meio do nada, entre a vida e a morte, com a garganta cortada e seus braços e pernas amputados. Foi encontrada por um grupo de artistas circenses e foi incorporada à trupe. Era uma nova atração, “A mulher mais linda do mundo sem braços e pernas e que não podia falar porque não tinha cordas vocais”. Apresentava-se ao lado da mulher mais gorda do mundo e da mulher barbada. Até na condição de aberração da natureza conseguiu se destacar mais do que os outros. Continuava despertando a cobiça dos homens e o ódio das mulheres. Foi trancada na jaula do leão pela mulher barbada e a mulher mais gorda do mundo. Saiu de lá semi-devorada. Agora seu corpo terminava um pouco acima do umbigo, mas continuava linda.

Tudo o que lhe restava era ser a melhor em fazer coisas com a boca. E mais uma vez foi bem-sucedida. Pintava com um pincel preso entre os dentes, cuspia fogo e engolia espadas. Nas horas vagas, fazia sexo oral no mestre do picadeiro e em outros homens que lhe pagassem bem.

As mulheres do circo convocaram uma reunião de emergência e uma feiticeira haitiana que entendia muito de vodu. E foi assim que a história de Magdalena Salerosa chegou ao fim. Era a mulher mais bela e talentosa que já existiu, mas o feitiço vodu haitiano, usando o ódio de todas as outras mulheres do mundo como fonte de energia, conseguiu transformá-la por poucos minutos em uma pessoa comum. Foi o suficiente para ela se engasgar com um jorro de esperma e morrer.

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