21 de dezembro de 2004

Um conto de Natal

Parecia que aquela embalagem esteve sempre exposta naquela vitrine à sua espera. A partir de uma distância de 10 metros, a caixa enorme e multicolorida era facilmente avistada. “Os incríveis insetos do circo de Nathaniel”, estas palavras estavam impressas em letras douradas garrafais na frente da embalagem. Quando aqueles olhos grandes de criança pousaram nela pela primeira vez , sua mente já havia decidido o que ele gostaria de ganhar no Natal daquele ano. E ainda estávamos em meados de Julho. O restante do ano demorou a passar para o pequeno Beto, assim como para seus pais que quase diariamente eram obrigados a ouvir sobre “Os incríveis insetos do circo de Nathaniel”. Beto teve que se confortar por 6 meses com a promessa de que Papai Noel se lembraria dele na manhã de Natal.

Na noite de 24 de Dezembro, antes de ir para a cama, Beto se ajoelhou e pela primeira e última vez na sua vida fez uma prece silenciosa.

Quando amanheceu, o garoto desceu correndo as escadas e viu uma embalagem embaixo da árvore de Natal. Era um trenzinho.

Os anos passaram e o pequeno Beto se transformou em Roberto Pereira dos Santos, um executivo bem-sucedido que dirigia uma Ferrari e trepava com modelos. Porém, em todos estes anos ele não conseguia evitar e sempre depois do sexo proferia a frase-clichê, “As coisas não deveriam ter sido assim” (Algumas vezes após o sexo ele também falava a outra frase-clichê, “Não é nada disso que você está pensando”, mas isso fica para outra estória).

Quando ele já tinha 45 anos, recebeu um telefonema de sua mãe e foi convidado para a tradicional festinha de Natal na casa dos pais.
“Vem pra cá filho, toda a família vai estar aqui.”
“Ok, mãe. A partir de que horas? Dez? Tá bom. Não, não vou levar ninguém.”
“Oi filho, que bom que você veio, já faz um bom tempo que você não liga.”
“É que eu estive meio ocupado mãe. Oi pai.”

Depois de muitas outras frases-clichês, todos sentaram ao redor da mesa de jantar.Estavam presentes, além dos pais de Roberto Pereira dos Santos, seu irmão e sua irmã, seus tios e seus avós.

Agora mais uma frase-clichê, cortesia do pai do Roberto.

“Filho, você quer fazer a prece?”

Roberto se levantou da cabeceira da mesa e sacou uma pistola do bolso. Atirou nos avós, nos irmãos e nos tios. Quando os seus pais correram apavorados, ele pegou uma embalagem que trazia consigo e os seguiu. Acuados no canto da sala, os dois olharam para Roberto, que abriu um sorriso e disse, “Pai...Mãe...Obrigado por terem me preparado para a vida.” Em seguida Roberto disparou contra a sua própria cabeça. Enquanto sua mãe entrava em um estado catatônico, o pai se arrastou e abriu a embalagem que jazia nos pés do cadáver de seu filho.

Na frente da embalagem estava escrito, em letras douradas garrafais, “Os incríveis insetos do circo de Nathaniel".

Os pais de Roberto se mudaram e nunca mais ninguém soube deles. Outras famílias habitaram aquela casa, onde viveram suas alegrias e tristezas. No entanto, desde aquela noite de Natal, o odor de sonhos despedaçados ficou impregnado no local e nunca mais se extinguiu.

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