23 de novembro de 2004

e
(n)os
lugares
todos
permanecem
(n)os
mesmos

8 de novembro de 2004

Como Pagar Micão nos Palcos Brasileiros (for international bands):

10. Um bom micão começa antes do palco, se for um artista decadente aproveite para se sentir uma estrela novamente e relembre a sua listinha de bizarrices de camarim que faziam você se sentir tão especial quando as pessoas te davam bola; Se você for um artista de projeção ridícula no resto do mundo, aproveite para, finalmente, se sentir uma estrela e capriche na listinha também;

9. Se alguém estiver olhando, arme um barraco no hotel;

8. Use um bordão da estação, cujo significado você ignora e que seu público abomina (ex: "uh tererê", "ah, eu tô maluco")

7. Dirija-se sempre com as mesmas 1 ou 2 frases de português decorado em cima da hora (ex: "Hôla, tchudo béin?")

6. Esqueça o "Thank you", agradeça com "Obrigado" e lembre-se que "Muchas Gracias" dobra seus pontos.

5. Grite "Rio" ou "Brasil" 10 vezes mais do que você diria "Kansas City" em um show na respectiva cidade.

4. Um membro da banda deve vestir a camisa da seleção. Algum outro pode usar a do Flamengo.

3. Diga que "Vocês são o melhor público do mundo". Mesmo aqueles que acompanham a turnê, têm gravações piratas e sabem que você diz isso pra todos irão acreditar.

2. Faça uma referencia gratuita a algum ícone nacional apenas fale "Ronaldo", "Romário", "Futebol", "Samba" ou "Caipirinha" fora de qualquer contexto. Arriscar notas de Aquarela do Brasil ou de qualquer coisa de Tom Jobim rendem pontos extra.

1. Convide uma escola de samba, timbalada, grupo de capoeira ou qualquer outra coisa "nativa" e "exótica" e que seja a última coisa que seus fãs gostariam de ouvir no mundo, pra tocar em sua melhor música.

4 de novembro de 2004

O carpinteiro de Nazaré

...E naquela noite de 25 de Dezembro, quando uma chuva de meteoros fustigava as cordilheiras de Belém, os três reis magos avistaram uma cabana iluminada no alto de um morro. Lá dentro, eles viram um homem, uma mulher e uma criança, não necessariamente nesta ordem.

Jotacê nasceu em Belém no meio de uma esplêndida chuva de meteoros, mas cresceu em Nazaré City, criado por um carpinteiro chamado José e sua mulher Maria.

Quando Jotacê teve que se inscrever no vestibular, não teve dúvidas qual seria a carreira que seguiria, marcou com um robusto “X” o curso de “Carpintaria e trabalhos manuais” da UFNC (Universidade Federal de Nazaré City, of course).

Como era um rapaz introspectivo, Jotacê não fez muitos amigos nos seus primeiros dias na Universidade, porém já havia conquistado a inimizade de muitos. Isto ocorreu porque Jotacê era um rapaz de pavio curto, então quando os veteranos de seu curso tinham ameaçado cortar suas longas madeixas no trote, o carpinteiro aspirante perdeu a cabeça e quebrou o nariz de um infeliz.

Jotacê passou a maior parte de seu primeiro semestre na UFNC confinado no interior da oficina de carpintaria. Mas, ao contrário do que os outros poderiam pensar, isto estava longe de ser um castigo para ele, afinal de contas Jotacê já havia concluído que nunca iria conseguir conviver com seres humanos.

Era uma manhã de quarta-feira, quando Jotacê, que como de hábito estava na oficina de carpintaria, teve uma visão que iria mudar o rumo de sua vida para sempre. Foi como se tudo estivesse em slow motion. Emergindo de uma nuvem de serragem surgia uma cabeleira ruiva e um rosto adornado por sardas. Seu nome era Mary Magdalena Jane Watson, ou MMJ para os íntimos. E ele estava apaixonado pela primeira vez na vida.

MMJ era o oposto de Jotacê, simpática, carismática e extremamente social. Pelo menos neste caso, os opostos não se atraíam. MMJ era frequentemente vista na companhia de praticantes de Jiu-Jitsu e outros esportistas, ou seja, as pessoas mais populares da universidade. Jotacê, por sua vez estava quase sempre sozinho. Ao final do segundo ano de sua graduação, ele enfim havia conseguido fazer um amigo, um chinesinho asmático que usava óculos fundo-de-garrafa, chamado Judas Escariotes Lee.

Torturado pela paixão não correspondida, Jotacê ia mal nos estudos. Seus pais foram chamados para a universidade e ficaram a par de toda a situação, inclusive do perfil anti-social de seu filho. Aconselhados pelos professores, José e Maria tomaram uma decisão.
Foi assim que Jotacê deixou Nazaré city e foi para mandado para um monastério no meio do Tibet. O conselho de professores da faculdade de “Carpintaria e trabalhos manuais” da UFNC, decidiu que Jotacê tinha um grande potencial, porém precisava lapidá-lo. E eles também decidiram que não havia ninguém melhor para isto do que um homem chamado Mestre Zabulus, que vivia no tal monastério.

Jotacê passou três anos no interior do monastério e ao contrário do que ele esperava, durante este período ele aprendeu muito mais do que como manusear uma tábua de madeira. Mestre Zabulus não era chamado de mestre por qualquer motivo, e da mesma forma que ele podia transformar o tronco de uma cerejeira em uma cristaleira em 30 minutos, ele transformou o corpo e mente de Jotacê, ao longo destes três anos.

No primeiro ano, Jotacê aprendeu a fazer prateleiras e a quebrar tábuas de madeira com as mãos, os pés e a testa. No segundo ano, Jotacê. aprendeu a fazer carrinhos de rolimã, armários e como matar um homem com um toque. No terceiro ano ele aprendeu a fazer casas inteiras e passou a andar sobre as águas.

Quando seu treinamento terminou, Mestre Zabulus o alertou, “Ensinei a você tudo que podia, porém não posso lhe ensinar como usar todo este conhecimento. Isto se chama livre-arbítrio.” Zabulus ainda lhe disse para não se surpreender com as mudanças que teriam ocorrido em Nazaré city após estes três anos.

Dito e feito, Jotacê foi incapaz de reconhecer Nazaré City após seu período de ausência. Aparentemente, a mudança teria sido causada pela chegada de um forasteiro, cerca de 1 ano após o ínicio dos treinamentos de Jotacê no Tibet. O forasteiro em questão se chamava Satan Ghosh e ao se estabelecer na cidade, declarou ser “um simples carpinteiro”. Como na época Nazaré City só tinha um carpinteiro, que era José, ele foi bem aceito a princípio. Porém Satan Ghosh logo se provou ser uma verdadeira raposa ambiciosa, formando em pouco tempo um exército de carpinteiros, que abriram várias carpintarias por toda a cidade. Rapidamente, um verdadeiro cartel de carpinteiros se formou em Nazaré city. José, se negando a compactuar com tal coisa, foi vítima de represálias por parte dos homens de Ghosh.

Jotacê voltou para Nazaré city apenas para ver sua cidade transformada em um antro de jogos, prostituição e dominada por Satan Ghosh. Quando eu digo apenas é porque se ele pudesse adivinhar o que estaria por vir teria preferido ficar no Tibet.

José não suportou os ferimentos causados pelos homens de Ghosh e morreu em um hospital público. Após sua morte, o paradeiro de Maria se tornou desconhecido. Judas Escariotes Lee, seu único amigo de outrora, se filiou ao exército de carpinteiros de Satan Ghosh, se tornando no processo um homem sádico e cruel. E Mary Magdalena Jane Watson? MMJ (só para os íntimos), se transformou em uma espécie de prostituta de luxo, que atendia com exclusividade aos homens de Satan Ghosh. Um dia, desgostosa com o que havia feito de sua vida, resolveu abreviá-la. Jotacê, que estava hospedado na casa dos pais, viu sua amada pela última vez naquela noite. Na verdade era apenas o espírito de MMJ que pairava em frente da janela de seu quarto. E ela cantava com a voz de Kate Bush (ou do André Matos, se vocês preferirem), “Jotacê, It’s me MMJ , I’ve come home, I’m so cooold, Let me in-in-a-your-window. You know, It’s me, I’m so cold.”

Ele não havia chorado quando soube da morte de José, ou quando Maria desapareceu. Mas chorou como uma criança ao ver MMJ cantando do lado de fora de sua janela. De alguma forma ele sabia que a única coisa que faria sua amada descansar em paz seria a busca da vingança. E para isso começou matando um por um todos os carpinteiros sob a tutela de Ghosh, num banho de sangue sem precedentes na história de Nazaré City.

Uma noite quando Jotacê dormia, Judas Escariotes Lee, outrora um chinesinho asmático e impopular, agora um homem temido e respeitado, levou os homens de Ghosh para a casa de José e Maria. Jotacê foi subjugado e levado para a carpintaria de Satan Ghosh, que se chamava “Carpintaria Gólgota”.

No interior da carpintaria, Jotacê e Satan Ghosh se enfrentaram no mano-a-mano pela primeira e única vez na história. Munidos apenas de martelos, os dois duelaram por horas a fio, até que Satan Ghosh conseguiu desferir dois golpes certeiros e pregou as mãos de Jotacê em uma tábua de madeira. Jotacê virou-se para o céu chorando e disse, “Pai, porque me abandonaste?”. Satan Ghosh então olhou Jotacê com um misto de desprezo e compaixão. “Nunca lhe contaram o que aconteceu com o seu pai?”, ele perguntou. Jotacê prontamente respondeu, com os olhos faiscando de ódio, “Você o matou!”. Satan Ghosh se dispôs a rir. E riu mais um pouco. E mais um pouco. Para finalmente responder, “Tu és meu filho, meu muito amado filho, em ti pus toda a minha complacência. Assim como minha ambição, meu ódio e meu desprezo pelos seres humanos.”

E então Jotacê gritou. E seu grito ficou marcado para sempre na memória dos habitantes de Nazaré city e só se extinguiu quando o último representante da estirpe dos Nazarenos exalou seu derradeiro suspiro.