27 de março de 2005

Fim de caso

Acordo e olho para a direita. Observo que a Natalie Portman continua deitada do meu lado. Sua boca está meio entreaberta e sua bochecha direita está sendo amassada pelo contato com a cama. Um filete de saliva sai de sua boca e mancha o lençol. Neste momento reparo que esta criatura que está deitada na minha cama, deixou de ser aquela deusa de outrora, e passou a ser apenas uma mulher que está manchando meu lençol com sua baba.

A Natalie Portman acorda momentos depois. Ela olha para mim e me pergunta o que está acontecendo. Aí eu respondo que não está acontecendo nada. "Você deixou de me amar, né?", insiste ela. Então eu digo que é claro que não, mas é mentira. E de alguma forma, ela sabe disto. As mulheres são boas nisto. Ela começa a chorar e nós nos abraçamos. Depois de algum tempo estamos fazendo amor, provavelmente pela última vez.

Foi uma merda, até mesmo porque ela não escovou os dentes e estava com mau-hálito matinal. Ela recomeça a chorar. Tento confortá-la, mas ela me repele. "Você estava pensando nela, não estava?", ela me acusa. Tenho que bancar o cínico, pergunto do que ela está falando. Ela continua, "Você estava pensando naquela vaca da Scarlett Johansson!". Putz, não consigo mentir para mulher, pelo menos não por muito tempo. Digo que sim. Pela terceira vez nesta manhã, as lágrimas escorrem de seus olhos.

Em pouco tempo ela já está vestida e arrumando suas malas. Enquanto a Natalie vai jogando as roupas dentro das malas, ela fica falando que vai voltar para a casa da mãe. Tenho uma estranha sensação de dejá vu. Me lembro de Kristin Scott Thomas, Sarah Polley, Keira Knightley e até da Megan, aquela loirinha que apresentava o planeta solitário no people and arts. Todas elas me deixaram assim que descobriram que eu já não pensava mais nelas como costumava fazer. Sou trazido de volta à realidade pelos gritos da Natalie. Ela fica perguntando o que a Scarlett tem que ela não tem. Eu fico tentado a dizer que a Scarlett tem muito mais peito, mas me contenho. "Aquilo tudo é silicone!", grita ela. Parece até que ela adivinhou os meus pensamentos. Natalie começa a guardar em uma sacola todas as roupas da rainha Amidala. "Por acaso ela já foi indicada ao Oscar? Claro que não, mas eu fui!!" Acho que ela está começando a jogar sujo. Ela começa a rir, mas ela ri meio que chorando e debocha, "Por acaso ela estuda em Harvard como eu ?" . Agora chega. Falo que a Scarlett não estuda em Harvard, mas pelo menos não fez aquela merda de Episódio 1 e não teve que contracenar com o Jar Jar Binks.

Acho que isto foi a gota d'água. Ela quer me matar, mas ao invés disto apenas sai e bate a porta.

Na semana seguinte, a Scarlett Johansson se muda para cá, passando a ocupar meus pensamentos em tempo integral. A voz rouca dela é realmente muito sexy em comparação com a voz infantil da Natalie Portman. Fazemos sexo selvagem todos os dias e é maravilhoso. Só que um dia eu reparo que seus seios grandes já estão meio caídos.

Neste momento, eu sei que em algum lugar, Kristin Scott Thomas, Sarah Polley, Keira Knightley, Megan (a loirinha do planeta solitário)e a Natalie Portman estão rindo de mim.

Elas me acham patético.


25 de março de 2005

Sexta-feira, 25 de março de 2005

Uma mulher ligou de Petrópolis.

Sua voz na secretária eletrônica foi ficando aguda, até passar a terminar duas oitavas mais altas, ou com uma leve microfonia no final de cada frase, auxiliada pela má qualidade da ligação, pela idade da secretária, pela loucura, pelo ódio e pelo medo.

Ela dizia "Isso é alguma piada? Por favor, me diga se alguém está te pagando pra fazer isso!".
E a voz, na secretária continuava "Por favor, apenas me conte a verdade, ok? Eu não vou fazer nada, eu não vou chamar a polícia nem nada disso".
Mas verdade é o que ela já tem.

Atrás dela, um ruído ao fundo, uma voz hesitante de criança diz, "Mãe?". A mulher, longe do aparelho, responde "Tudo bem, querido, vai ficar tudo bem, não se apavore, vai ficar tudo bem, tá? Tudo bem...".

Hoje a temperatura se encontra em elevação, mínima de 20, máxima de 30 graus centígrados.

Sua voz na secretária eletrônica diz "Me liga de volta, tá bom?", deixa um número e então diz, "Por favor...".

23 de março de 2005

Quarta-feira, 23 de Março de 2005

Hoje um homem ligou de Conselheiro Lafaiete. Deixou uma longa mensagem na secretária eletrônica, gritando e balbuciando, falando rápido e devagar, xingando e ameaçando chamar a polícia, "pra te prender".

Hoje é o dia mais longo do ano, mas assim também o são todos os outros.

Hoje é claro a parcialmente nublado com pancadas de chuva e trovoadas. Estável, máxima de 35 e mínima de 19 graus centígrados.

O homem que ligou de Conselheiro Lafaiete pede de volta sua vida.

19 de março de 2005

O homem que via fracassados


Um homem entrou no consultório de um médico e disse... Eu sei que esta provavelmente é a pior maneira de se começar uma história, já que ela fica com uma cara de anedota, mas esta é a melhor maneira de se narrar os acontecimentos daquela segunda-feira, visto que foi o único evento excepcional que aconteceu naquele dia. Afinal, a maioria das segundas-feiras são extremamente modorrentas, assim como os domingos que as precedem. Então, desculpem-me, mas começo a história assim mesmo.

Era uma segunda-feira como outra qualquer, um homem entrou no consultório de um médico e disse:

- Doutor, eu vejo fracassados!

- Cuméquié!? – Esta expressão certamente não reflete o grau de instrução do médico em questão, mas foi a única coisa que ele conseguiu falar após ouvir algo tão inusitado.

- É isto mesmo que você ouviu, doutor. Eu vejo fracassados em qualquer lugar, toda hora. Posso estar comendo, no chuveiro, trabalhando, não consigo evitar, mesmo quando fecho os olhos eles estão lá. Eles simplesmente estão lá!

Ao ouvir tudo aquilo o médico pensou, “Caraca, estas coisas só acontecem comigo”, em seguida respirou fundo e disse:

- Meu senhor, olha só... Já atendi gente que vem aqui dizendo que está sentindo borboletas no estômago, febre na barriga... Até já atendi um garoto que dizia que via gente morta... Mas, fracassados? Que diabos é isso?

- Olha, sei que o doutor ia me achar maluco se eu falasse isto. É meio complicado mesmo, mas agora mesmo, neste momento que eu estou falando com o senhor, eu estou vendo fracassados nesta sala.

- Aqui? Agora? – Perguntou o incrédulo médico – E o senhor pode me dizer onde eles estão e o que estão fazendo?

- Bom, tem um fracassado aí do seu lado agorinha mesmo. É um dos fracassados clássicos, o tipo que eu mais vejo, ele está enchendo a cara num bar porque perdeu a família e o emprego, algo assim do gênero. Quando eu estava lá na sala de espera, tinha uma garota que estava em casa, esperando um telefonema de um cara que nunca vai ligar, uma fracassada romântica. Quando eu estava vindo para cá, eu vi três adolescentes que passavam todas as noites de sábado jogando videogames, eram fracassados nerds.

O médico ficou surpreso de ter conseguido ouvir aquela baboseira até o fim. Ele começou então a interrogar o pobre homem, querendo saber mais detalhes. Se ele estava tomando algum medicamento, se consumia drogas ou álcool e todas estas coisas. Diante das respostas negativas do seu paciente, só lhe restou dizer:

- Meu senhor... eu sou só um clínico geral e portanto posso não ser o especialista mais indicado para tratar de sua condição. Mas, eu vou pedir um exame de ressonância magnética de seu cérebro e vou mandar o resultado para um especialista para ver se conseguimos detectar alguma coisa. Agora, me faz um favor, vai pra casa, descansa um pouco, que isso tudo pode ser apenas stress.

Uma semana depois, o médico recebeu os exames e ligou para um amigo seu que era neurologista. Ouviu algo que já esperava, não havia nada de errado com o paciente. No dia seguinte, o homem-que-via-fracassados estava de volta ao seu consultório.

- Esta semana eu vi um homem que devia ter uns 37 anos... Ele ainda é virgem e viaja até outra cidade para comprar fitas pornôs nas bancas de jornais. – Ele dizia tudo isto com um ar resignado.

O médico lhe indicou um neurologista (aquele que era seu amigo) e também um psiquiatra. Não achava que o homem fosse maluco, mas simplesmente não sabia mais o que podia fazer. O neurologista e o psiquiatra ligariam dias depois, dizendo que não conseguiam estabelecer nenhum diagnóstico para o sujeito. As semanas passaram e o homem-que-via-fracassados continuava visitando o médico. A cada consulta ele contava sobre suas visões, “Hoje, eu vi um garoto sendo humilhado pelos colegas na aula de educação física”. “Teve um cara que chegou ao extremo. Ele não aguentou e tentou se matar, mas não conseguiu, agora está numa cadeira de rodas.” Pequenas tragédias do cotidiano. Aos poucos, o médico começou a se afeiçoar por elas, tanto que não deu ao homem-que-via-fracassados o telefone de uma psicóloga que ele conhecia. Queria todas estas histórias só para ele. Chegou ao ponto de desmarcar consultas para receber o homem-que-via-fracassados. Até que foi atingido pela culpa. Não estava ajudando o seu paciente, mas apenas encorajando seus delírios. Decidiu que iria pôr um fim em tudo aquilo. Procurou os melhores psicólogos, psiquiatras, neurologistas e iria deixar que eles tomassem conta do homem-que-via-fracassados. Quando ele apareceu no consultório, o médico foi sincero, contou-lhe tudo e disse que não podia fazer mais nada por ele, mas que não era por isso que ele deveria perder as esperanças.

O homem-que-via-fracassados olhou para o médico e disse:

- Doutor, eu tentei explicar isto para você desde que eu vim aqui pela primeira vez, mas eu não consegui. Se alguém aqui precisa de ajuda, este alguém é você. E se alguém aqui pode ajudá-lo,este alguém sou eu.

O médico começou a rir. Perguntou entre gargalhadas:

- E que tipo de ajuda eu preciso, posso saber? E como você, dentre todas as pessoas do mundo, poderia me ajudar?

- Doutor, quando eu comecei a ver estas pessoas, você foi a primeira que me apareceu. Você tem que esquecê-la. Ela não vai voltar para você. Nunca mais.

Dito isto, o homem-que-via-fracassados se levantou e foi embora. Nunca mais apareceu no consultório.

O médico começou a chorar. De repente, tudo havia se tornado claro.

- Glória. Glória, por que você me deixou? Eu sempre fiz tudo por você...


Então ele se lembrou daquela música. Era a música que ela havia escolhido para ser a música deles. “A nossa música”, pensou ele. Aquelas coisas que todo casal de namorados faz quando está apaixonado. Na época ele não conseguiu entender porque ela escolheu justo aquela música, já que a letra não lhe parecia nada romântica.

Agora ele sabia perfeitamente.


Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...My mind...my mind...
'Til I find somebody new