14 de julho de 2005

O homem que via fracassados - parte 2


Previously, em O homem que via fracassados...


“It’s been seven hours and fifteen days
since you took your love away...”

Foi só depois de constatar que estava ouvindo o cd da Sinead O’ Connor pela nonagésima vez que ele enfim se convenceu.

Era mesmo um fracassado.

“Nothing can stop these lonely tears from falling. Tell me baby where did I go wrong”

- Putaqueopariu!! Porra Glória,vadia, vaca, suja, puta, meretriz, piranha... Por que você foi embora?

No fundo ele sabia, sempre soube. Glória era boa demais para ele. Ela conseguia penetrar nas panelinhas mais fechadas e em menos de 10 minutos já conseguia dar uma opinião inteligente sobre qualquer assunto, daquele tipo que podia extrair “ohhh” de uma platéia, desde que uma conversa pudesse atrair o mesmo número de espectadores que uma partida de futebol. E ele? Ele ficava relegado aos cantos, nas vernissages, nos coquetéis e nas festas. Esperando outro médico aparecer para conversar sobre "assuntos de médico", mas não podia ser um ortopedista, ortopedista é muito burro, também não podia ser um neurologista também, porque estes costumavam se achar muito inteligentes. Porra, até quando ela estava na fossa dava de mil a zero nele. Ela escutava Damien Rice e ele Sinead O’ Connor. Porra, Sinead O’ Connor é legalzinho, mas é tão eighties!! Até o Duran-Duran parecia a melhor coisa do mundo naquela época!

De repente, num ímpeto que só demonstra o quão fracassado ele era, botou na cabeça que tinha que falar com ela. “Nem que seja pela última vez”, pensou. Mas como? Ele já havia tentado inutilmente entrar em contato nos meses que sucederam o fim da relação. Não sabia mais aonde Glória morava, nem o seu número de telefone e seus e-mails não eram respondidos.

Surgia então na sua cabeça a idéia mais estúpida de todas. O homem que via fracassados sabia quem ela era, afinal ele disse claramente “Ela não vai voltar para você, nunca mais”. Então ele devia saber qual era o seu paradeiro, não? Provavelmente não, mas considerando-se que ele era realmente um fracassado e esta merda precisa seguir adiante, vamos achar que sim. Mas como é que ia achar o desgraçado? Obviamente, ele teve que dar um nome para a secretária marcar consulta. Ligou para a secretária, que atendeu com o mau-humor costumeiro que aflige todas as pessoas que são acordadas às duas da madrugada. Apesar disto ela forneceu todos os dados do paciente. Ligou então para o número que estava em suas mãos. Elas tremiam. Ninguém atendeu. “Atende filho da puta, atende”. Toca, Toca, Toca.

A campainha da porta tocou.

Antes de abrir a porta ele já sabia, sentiu a presença, “um distúrbio na força” ou qualquer merda deste gênero.

Chovia lá fora e o homem que via fracassados estava encharcado.
This has got to die
This has got to stop
This has got to lie down
Someone else on top

4 de julho de 2005

Obrigado Bob

Os problemas da Africa vão continuar todos aí, mas hoje o mundo é um lugar melhor.