5 de março de 2006

Sobre o amor e as bolas paradas

Os fatos narrados aqui poderiam ter acontecido em uma partida de futebol qualquer. Bom, na verdade, para entendermos a dramaticidade da situação, é necessário que eles tenham ocorrido em uma partida entre profissionais, portanto apague do seu imaginário a cena de uma pelada entre amigos no fim de semana. Ok, tendo isto em mente, acho que é irrelevante saber se foi em uma final da copa do mundo ou no hexagonal do segundo turno do campeonato capixaba. No entanto, posso dizer que a narrativa fica realmente muito mais interessante se for imaginada num contexto de final de copa do mundo ou da champions league. E com isto eu dou a minha palavra que é o último detalhe que deve ser visualizado, portanto mesmo que você deteste futebol pode continuar lendo estas linhas.
Esqueça qualquer menção a nomes de times ou jogadores famosos, pois para continuar esta história não é necessário que 22 homens estejam correndo em campo atrás de uma bola. Aliás, da bola, eu só exijo que ela fique parada, de preferência bem na marca do pênalti. Também se não for pedir muito, gostaria de ter apenas dois jogadores à minha disposição, um para chutar a bola e outro para tentar defendê-la. Escrever sobre o momento do pênalti deve ser a coisa mais clichê do mundo. Sei disto e por isto mesmo peço desculpas. Mas, aonde eu estava mesmo? Ah sim, após ter ajeitado a bola na marca de cal, o jogador dá uns passinhos para trás e em seguida se encaminha para dar o chute. Apesar de soar mais clichê ainda, estas ações que só levam segundos para serem desempenhadas, sob o ponto de vista do jogador demoram uma eternidade. E durante esta eternidade ele pensa. Em que? São várias correntes de pensamentos que o invadem neste segundo, desde como e em que direção chutar a bola até nas conseqüências dos seus atos. É neste momento em que as coisas parecem estar congeladas, ele começa a se lembrar...
Ele então se lembra de como há meses atrás, ele havia conhecido aquela mulher. Se conheceram casualmente, também não vale a pena entrar em detalhes porque embora o momento que antecede a cobrança do pênalti pareça eterno, ele realmente não é. Então não é de se admirar que alguns detalhes fiquem perdidos. Porém, ele se lembra de como naquele momento, ela lhe pareceu a garota mais linda que ele conheceu na vida. Sei que tudo soa como um clichê, mas acho que a vida é assim mesmo, então o que eu posso fazer? Com o auxílio do álcool, ele teve a coragem suficiente para se aproximar e puxar uma conversa. Aos poucos, descobriram que tinham afinidades e interesses em comum, também não vale a pena citar quais eram estes interesses, mas faço questão de frisar que não se tratava de pagode ou churrasco, coisas que são de interesse comum de futebolistas em geral. Enfim, apesar da conversa ter decorrido de forma agradável, não houve sexo e nem um beijo de despedida naquela noite, apenas uma troca de e-mails e um aperto de mãos no final da conversa. E assim passaram vários meses, e embora tenha sido bastante forte durante as primeiras semanas que decorreram a partir daquele encontro inicial, a lembrança da moça em sua mente foi se esvaindo até desaparecer quase por completo. Mas aquela lembrança ficou lá, em algum lugar de sua mente, esperando, esperando por meses, até ele receber aquele e-mail que almejava tanto, embora nunca tenha admitido. Também não vale a pena entrar nos detalhes do que exatamente estava escrito naquele e-mail, apenas que dizia que a moça gostaria de se encontrar com ele mais uma vez. Chegou meia hora adiantado ao local do encontro e quando estava perdido em seus próprios devaneios, ouviu aquela voz chamando seu nome.
Agora toda aquela distância que o separava da bola se foi. Neste exato momento, em que o seu pé está prestes a desferir o chute, ele se lembra exatamente de como se sentiu quando se virou e a viu novamente, pois quando os seus olhares se reencontraram, tal como agora, mil pensamentos assolaram sua mente e ele experimentou a mesma sensação de eternidade momentânea.
Talvez tenha sido a escolha equivocada das palavras ou a força exagerada que ele colocou no chute. Na verdade, ele nunca saberá ao certo. No fim ele só viu a bola saindo pela linha de fundo e a moça indo embora sozinha. Mas talvez daqui a alguns anos, quando ele olhar para trás, ele nem ao menos irá se lembrar disto. A única coisa que com certeza ele levará consigo, será aquela fração de segundo, antes de qualquer palavra ser dita e de qualquer chute ser desferido, quando todas as possibilidades do mundo estavam abertas para ele.

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